Livros de Prospero

«Sabendo do meu amor aos livros trouxe-me/ Da minha própria biblioteca alguns volumes/ Que prezo mais do que o meu ducado» Shakespeare

A minha fotografia
Nome: nils

12/05/2005

Livro de Arquitectura e outras Músicas

Em boa verdade devemos dizer que um livro,um dia, prendeu a atenção de Ariel. Conta-se que Prospero estando ocupado em estudos, Ariel irrompeu-lhe pela sala anunciando a partida de uma embarcação, que segundo pensava, poderia trazer finalmente à ilha a realeza de Nápoles. Com o rompante da sua entrada e com a nova que Ariel lhe trazia, o antigo Duque de Milão, primeiro esfuziante e depois confuso, esqueceu-se de encerrar as páginas do livro de arquitectura.
Na gruta ecoavam distintos sons de instrumentos musicais como estariam a ser tocados, naquele preciso momento, perante as cortes mais insignes da Europa. Ariel não se terá concentrado nestes sons, apenas quando ouviu soar uma toada que também para o Mago era diferente, porque indígena de um Novo Mundo.
- Mas que música é esta senhor, tão diferente de ouvidor para ouvidor?
- É música de povos do outro lado do mar, Ariel! Música através da qual se constroem paredes humanas em distantes florestas.
-O mar não tem lados… O mar é em toda a volta. De voz bem mais remota e de sons inacabados.
- Provém deste livro e efectivamente é como que tocada nesta gruta, mas é talvez obra da Humanidade, de gente como eu ou Miranda...
- E é humana? Não se parece com a que de outros de vós emana.
- Humana? Não sei… Poderá também porvir de uma criatura como tu, Ariel, ou de uma outra, mais rude, como Calibã. Mas não de um pássaro, não de um animal senão daqueles que povoavam os bosque de um Olímpo. Um som inteligente!
- Como inteligente e ao mesmo tempo de um Calibã? Soaria como a noite, não como a manhã.
- Soaria talvez como água.
- Talvez humana, ainda que não vos sinta capazes de emitir tais sons, nem que o fizesseis com instrumentos divinos. Não como esta paleta de tons, não como estes risos de meninos.
- Dizes-me que a embarcação partiu.
- Sim. O barco já partiu. Navega um mar sereno como navegasse um rio.
- Não, Ariel. O barco não terá partido. Se ainda agora estudo, como poderia o barco estar já a caminho? Aguarda Ariel! Auxilia-me com Calibã e as más influências da ilha, ajuda-me a que tudo pareça sonho e saber antigo para Miranda, ajuda-me a fazer a ilha, o mar, o mundo em volta do mar.

- Assim o farei senhor… Mas cerra esse livro que não o quero olhar. Cala essa música de quem ou de onde for. Tão diferente daquela que sei executar.
- Bom Ariel, nenhuma música tem a magia da tua. Estava ocupado em, por magia, fazer erigir a ilha à imagem de um palácio da renascença. Deixei-me embrenhar pela música que tanta companhia me fez, ecoando distante no salão,após a morte de Susana. Sabe que aqui fechado estudo unicamente para o dia do naufrágio. Por vezes é o vento, por vezes memórias, raramente o presente,tudo se quer impor para me distrair. Confiei em Calibã, desiludiu-me! Apenas conto contigo para todas as ameaças da espera e para o que dela resultará.
- Assim o farei para que me concedas a liberdade. Ao teu lado estarei, teus livros respeitarei, tua será a minha verdade.
Seria por se sentir assolado de uma curiosidade indesejada, sentimento que lhe era estranho, sobre os assuntos demasiado humanos de Prospero, os quais com vigor teria negado, que Ariel ordenava o encerramento do volume.
Seria talvez ainda por repugnância que o homem, obra imperfeita e orfã, ousasse aproximar-se de criações dignas daqueles que povoando a mesma terra, lhe eram em tudo superiores. Certo é que, talvez não seja bem verdade que Ariel não tenha tido qualquer interesse por nenhum livro. Interessou-se sim, por este, não pela obra em si mas pela música que dele emanava.

11/25/2005

Livro dos Jogos

Dados viciados (Inglaterra, séc. XV)
Fonte: BBC News

Com o Livro dos Jogos, Prospero jogava sozinho. Todos na ilha lhe quiseram perguntar que livro aquele que se encontrava a escrever. Todos mas um não o fizeram. Miranda pensava tratar-se das memórias que ainda em pequena lhe contara. Calibã menosprezando Prospero, apenas se interessava pela sua biblioteca e por nenhum livro em particular. Ariel não se interessava verdadeiramente pelos livros mas pelas possibilidades de liberdade que Prospero lhe poderia oferecer. Apenas por isso, assegurou-lhe, se interessou momentaneamente sobre o livro que escrevia.
Uma noite o livro dos jogos encerrou-se. De uma vez. Frequentemente o livro mantinha-se aberto dias a fio, esperando que Prospero desenvolvesse uma estratégia para cada situação que se lhe apresentava. Um táctica que culminasse em vitória.
Não raras vezes o mago dobrou o volume e encerrou ele mesmo uma partida. Mas não derrotara ainda nenhum jogo. Em todas as vezes e páginas poderia ainda sair derrotado. Como naquela noite em que, cansado, insistira no dolo de uma solução triunfante destinada a terminar lograda. Era finda a situação. Não o jogo.
De pronto limpou as folhas sobre a mesa. Uma avalanche de aparas, lápis, folhas brancas e rascunhadas, lombadas e encadernações tombando num solo de água. Prospero trouxe à mesa uma enorme folha branca, uma tábua, um pequeno bocado de carvão e delineou um tabuleiro igualzinho ao do jogo. As peças nas mesmas casas. Os augúrios no exacto mesmo sítio. E obrigatoriamente uma outra conclusão.
Que jogo? Que jogo o seu! Ficou de pé. Mãos engelhadas de jovem, o mesmo olhar mortiço atento ao lume e à luz candente sobre a mesa. O mesmo Prospero. Por sua magia perdera o ducado, à mesma ficaria a dever a sua recuperação. Nunca Prospero agradecera a um só Deus, por no seu imenso infortúnio, lhe ter sido poupada Miranda. Pela via da magia decidiria a partida, mais do que evidente. E desconfiava ele? Desconfiava da Sua virtude em lhe conceder vitórias.
Nessa noite Prospero sonhou que o mais que chamava livros era ele mesmo que escrevia. Que as grandes obras eram suas e que todas as práticas mágicas, linhas de sabedoria de si. Acreditara em sonho que a sua magia era de Sua vontade. Mas só em sonho. Ausentes da vida de Prospero andavam os deuses de seus pais ou do seu povo. A vontade deles.
Uma noite após olhar a lua, como mandavam os preceitos e com ela as constelações, como obrigavam os seus aprimoramentos, Prospero questionou-se que jogo o que jogava sozinho, e quais as regras que o regiam. Havia feito da sua filha uma peça. Por sujeição, de Calibã um actor. Por evocação, tinha em Ariel um coadjuvante.
- És-me cada vez mais frequente!
- E tu ausente.
- Que livro escreves?
- A solução de um jogo.
- Permite-me que pelo fogo...
- Rege-se pelas leis de Israel.
- O teu deus, pelo ar, em Ariel
- Ele não é o meu deus.
- Místico velho sandeu. (pensas que és tu que aqui me tens e não reconheces de onde vens).
Que livro escrevia? Que jogo jogava. De onde lhe vinha a magia que destinaria sua filha a Fernando, Calibã à traição, punindo António e Alonso ou revelando por demais as verdadeiras faces de Gonçalo e Sebastião. A mesma que lhe permitia libertar Ariel quando ele mesmo se não decidia a partir? Ou que só de si levasse esse navio a embarcar, a partir e a naufragar, as suas tábuas a flutuarem à medida da braçada e do ideal sustento de um corpo. Que espíritos precisos poderiam levar a que se salvassem todos os necessários no mesmo naufrágio em que se afogavam outros. Que chegassem à ilha em grupos exactos.
Ariel chefe dos espíritos, não lhe sugeriu que retivesse a frota, enquanto Prospero não percebesse sozinho a impossibilidade de tomar a vida de alguns homens apenas pelo propósito da sua vingança. A tempestade e o sonho. O livre arbítrio e o seu limite. Nem pelas regras. Prospero errara a estratégia. Errara a hierarquia, terra, água, ar e fogo. O livro dos jogos Prospero jogava sozinho. Encerrado perante os seus olhos, contra sua vontade.

11/16/2005

Autobiografias de Pasifae e Semiramis

Felicien Rops (1833- 1898)

Este o livro que quando folheado pelas mãos de Calibã quase levou ao estupro de Miranda. Desde então Prospero encerrou-o escondido e expulsou o seu servo dessa sua condição. A inocente menina Miranda, ainda não completara os seus doze anos, quando caída nas mãos do viscoso híbrido filho de Sicorax.
Uma vez Calibã consegui que Miranda lhe abrisse as portas que levavam à esotérica biblioteca de Prospero, ai folheou diversos livros e verteu as suas lágrimas ao contactar com uma obra toda ela dedicada ao elemento de que aparentemente provinha, a água. Foi enquanto Miranda lhe ensinava a linguagem, foi após Miranda lhe ter ensinado os rudimentos com que a enganou. Calibã penetrou na biblioteca pela mão da menina, passou os olhos sem interesse pelas diversas obras ali guardadas enquanto congeminava uma forma de as destruir. Deteve-se somente para folhear, de forma demorada e sequiosa, um volume dedicado às Autobiografias de Pasifae e Semiramis. Um volume de ilustrações obscenas e pornográficas, infecto com manchas de fluidos e pêlos humanos.
Enquanto o fazia a sua boca salivava, os membros tremiam, o seu corpo langoroso exsudava um cheiro nauseabundo de um animal com cio e sentia entumecer o órgão reprodutor. Como uma besta, melhor, como a besta que montou sua mãe, o híbrido atirou-se ao corpo magro e alvo da rapariga, que se batalhou debaixo do seu peso com lágrimas e gritos.
A pura Miranda, contrita, estava pronta a deixar-se levar pela violência de Calibã enquanto deixava o seu pensamento de criança vaguear pelas palavras do pai que lhe haviam contado coisas bonitas sobre Susana, sua mãe… Pensava efectivamente em outra coisa enquanto as mãos escamosas do monstro a forçavam a abrir as pernas, foi então que Prospero irrompeu na sala e, com auxílio de Ariel, o expulsou com palavras de danação. Para sempre e dali adiante, estava Calibã vedado à instrução e ao contacto com a sua infantil preceptora. Ariel nunca demonstrou interesse por nenhum livro, apenas e naquele momento, repugnância por este!

9/18/2005

Livro da Água

Tinha sido em um livro que Prospero lera a verdadeira compleição de Calibã. Todos nós – disse-lhe Áriel – temos uma figura de dentro e uma figura de fora, mesmo tu ó meu senhor (com um certo sarcasmo, Prospero recordava-se), tens uma face interior e uma exterior. Mesmo tu, Duque de Milão. Como quando eras Duque e eras mago. Prospero o aziago!
Apenas através de Calibã, através da água, o velho se entendeu a si próprio. Pela água desse ser de água, pela água que espelha, em que se imerge, pela água de correntes e rios, de torrentes e fontes, das chuvas a norte, das chuvas do sul, pela água que nos lava, nos baptiza, nos ensopa e se evapora. Pelas águas remanescentes do dilúvio. Pela água de dentro, como Calibã, um corpo de água.
- Com a minha magia quis eu salvar-me a mim próprio. Pela evocação da Tempestade, pela invocação deste mar. Ondas balancem-me, chuvas fustiguem-me o rosto, minha carta onde está? Pela minha magia a salvo deste naufrágio e sinto, sei que sinto, essa magia ainda. Ainda Prospero, não o Mago nem o Duque, mas o entregue à Morte. O que não tomará um leme com as mãos que deixam esta carga.
À Salvação! Um destroço.

9/12/2005

Os 92 Híbridos do Minotauro

Michael Clark como Calibã
The Prospero's Books (Peter Greenaway, 1991)

Dizer que Calibã poderia ter muito interesse neste livro é minorar o impacto que esta genealogia poderia ter sobre o homem/monstro/peixe. Se Prospero ocultava a sua biblioteca das mãos e olhos da sua filha Miranda, não é de espantar que se diga que a mesma não era acessível a Calibã. Mas Calibã sempre desejou imiscuir-se na gruta do seu amo e destruir todos os volumes utilizados por Prospero. Era de sua opinião que, em os destruindo, Prospero seria forçado a abdicar da magia e com ela do senhorio da ilha. Para Calibã a diferença entre ele e Prospero estava toda naqueles tomos.
Uma vez o servo maligno de Prospero conseguiu, com auxílio de Miranda, entrar na caverna e ter contacto com os livros. Antes de se deparar com os 92 Híbridos do Minotauro, Calibã, ele próprio um híbrido, ter-se-á deparado com um outro livro que mais do que o destruir quis para si próprio. Um livro cujas ilustrações deixavam poucas dúvidas quanto ao seu conteúdo.
Em resultado dessa intromissão e de ter folheado com as suas mãos escamosas esse outro livro, o filho de Sicorax tentaria violentar Miranda. A boa amiga Miranda, tão empenhada na sua educação. Tivesse o criado de Prospero levado avante tão indecorosa tentativa e toda a aprendizagem e uso que Prospero fizera da sua Magia teriam sido gorados.
Sem nenhuma intenção, apenas dominado por um impulso, Calibã teria obtido o que julgava conseguir pela destruição dos livros de Prospero. A ilha povoar-se-ia de uma descendência de pequenos monstros gerados pela semente de Calibã em Miranda e, talvez, Prospero voltasse a ter que se haver com Setebos. Se… Ses… em resultado das mãos de Calibã terem folheado um outro livro e não este. Este sendo aquele, através do qual, talvez se tivesse apercebido da sua própria monstruosidade e ascendência.