Livro de Arquitectura e outras Músicas
Em boa verdade devemos dizer que um livro,um dia, prendeu a atenção de Ariel. Conta-se que Prospero estando ocupado em estudos, Ariel irrompeu-lhe pela sala anunciando a partida de uma embarcação, que segundo pensava, poderia trazer finalmente à ilha a realeza de Nápoles. Com o rompante da sua entrada e com a nova que Ariel lhe trazia, o antigo Duque de Milão, primeiro esfuziante e depois confuso, esqueceu-se de encerrar as páginas do livro de arquitectura.
Na gruta ecoavam distintos sons de instrumentos musicais como estariam a ser tocados, naquele preciso momento, perante as cortes mais insignes da Europa. Ariel não se terá concentrado nestes sons, apenas quando ouviu soar uma toada que também para o Mago era diferente, porque indígena de um Novo Mundo.
- Mas que música é esta senhor, tão diferente de ouvidor para ouvidor?
- É música de povos do outro lado do mar, Ariel! Música através da qual se constroem paredes humanas em distantes florestas.
-O mar não tem lados… O mar é em toda a volta. De voz bem mais remota e de sons inacabados.
- Provém deste livro e efectivamente é como que tocada nesta gruta, mas é talvez obra da Humanidade, de gente como eu ou Miranda...
- E é humana? Não se parece com a que de outros de vós emana.
- Humana? Não sei… Poderá também porvir de uma criatura como tu, Ariel, ou de uma outra, mais rude, como Calibã. Mas não de um pássaro, não de um animal senão daqueles que povoavam os bosque de um Olímpo. Um som inteligente!
- Como inteligente e ao mesmo tempo de um Calibã? Soaria como a noite, não como a manhã.
- Soaria talvez como água.
- Talvez humana, ainda que não vos sinta capazes de emitir tais sons, nem que o fizesseis com instrumentos divinos. Não como esta paleta de tons, não como estes risos de meninos.
- Dizes-me que a embarcação partiu.
- Sim. O barco já partiu. Navega um mar sereno como navegasse um rio.
- Não, Ariel. O barco não terá partido. Se ainda agora estudo, como poderia o barco estar já a caminho? Aguarda Ariel! Auxilia-me com Calibã e as más influências da ilha, ajuda-me a que tudo pareça sonho e saber antigo para Miranda, ajuda-me a fazer a ilha, o mar, o mundo em volta do mar.
- Assim o farei senhor… Mas cerra esse livro que não o quero olhar. Cala essa música de quem ou de onde for. Tão diferente daquela que sei executar.
- Bom Ariel, nenhuma música tem a magia da tua. Estava ocupado em, por magia, fazer erigir a ilha à imagem de um palácio da renascença. Deixei-me embrenhar pela música que tanta companhia me fez, ecoando distante no salão,após a morte de Susana. Sabe que aqui fechado estudo unicamente para o dia do naufrágio. Por vezes é o vento, por vezes memórias, raramente o presente,tudo se quer impor para me distrair. Confiei em Calibã, desiludiu-me! Apenas conto contigo para todas as ameaças da espera e para o que dela resultará.
- Assim o farei para que me concedas a liberdade. Ao teu lado estarei, teus livros respeitarei, tua será a minha verdade.
Seria por se sentir assolado de uma curiosidade indesejada, sentimento que lhe era estranho, sobre os assuntos demasiado humanos de Prospero, os quais com vigor teria negado, que Ariel ordenava o encerramento do volume.
- Mas que música é esta senhor, tão diferente de ouvidor para ouvidor?
- É música de povos do outro lado do mar, Ariel! Música através da qual se constroem paredes humanas em distantes florestas.
-O mar não tem lados… O mar é em toda a volta. De voz bem mais remota e de sons inacabados.
- Provém deste livro e efectivamente é como que tocada nesta gruta, mas é talvez obra da Humanidade, de gente como eu ou Miranda...
- E é humana? Não se parece com a que de outros de vós emana.
- Humana? Não sei… Poderá também porvir de uma criatura como tu, Ariel, ou de uma outra, mais rude, como Calibã. Mas não de um pássaro, não de um animal senão daqueles que povoavam os bosque de um Olímpo. Um som inteligente!
- Como inteligente e ao mesmo tempo de um Calibã? Soaria como a noite, não como a manhã.
- Soaria talvez como água.
- Talvez humana, ainda que não vos sinta capazes de emitir tais sons, nem que o fizesseis com instrumentos divinos. Não como esta paleta de tons, não como estes risos de meninos.
- Dizes-me que a embarcação partiu.
- Sim. O barco já partiu. Navega um mar sereno como navegasse um rio.
- Não, Ariel. O barco não terá partido. Se ainda agora estudo, como poderia o barco estar já a caminho? Aguarda Ariel! Auxilia-me com Calibã e as más influências da ilha, ajuda-me a que tudo pareça sonho e saber antigo para Miranda, ajuda-me a fazer a ilha, o mar, o mundo em volta do mar.
- Assim o farei senhor… Mas cerra esse livro que não o quero olhar. Cala essa música de quem ou de onde for. Tão diferente daquela que sei executar.
- Bom Ariel, nenhuma música tem a magia da tua. Estava ocupado em, por magia, fazer erigir a ilha à imagem de um palácio da renascença. Deixei-me embrenhar pela música que tanta companhia me fez, ecoando distante no salão,após a morte de Susana. Sabe que aqui fechado estudo unicamente para o dia do naufrágio. Por vezes é o vento, por vezes memórias, raramente o presente,tudo se quer impor para me distrair. Confiei em Calibã, desiludiu-me! Apenas conto contigo para todas as ameaças da espera e para o que dela resultará.
- Assim o farei para que me concedas a liberdade. Ao teu lado estarei, teus livros respeitarei, tua será a minha verdade.
Seria por se sentir assolado de uma curiosidade indesejada, sentimento que lhe era estranho, sobre os assuntos demasiado humanos de Prospero, os quais com vigor teria negado, que Ariel ordenava o encerramento do volume.
Seria talvez ainda por repugnância que o homem, obra imperfeita e orfã, ousasse aproximar-se de criações dignas daqueles que povoando a mesma terra, lhe eram em tudo superiores. Certo é que, talvez não seja bem verdade que Ariel não tenha tido qualquer interesse por nenhum livro. Interessou-se sim, por este, não pela obra em si mas pela música que dele emanava.




